Somos todos cegos, surdos e burros

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por Nilton Ramos*

Os índices de violência no país são cada vez maiores. Violência que ceifa vidas, com crimes de sangue do Oiapoque ao Chuí.

Desnecessária a classificação das diferentes formas de violência cometida hodiernamente. Violência rural. Violência urbana.

Há décadas acreditávamos que o poder dado pelo dinheiro a grupos mais avantajados ou ‘bafejados pela sorte’ era uma exclusividade do coronelismo em algum lugar no fim do mundo.

Esses dominavam tudo em seus ‘currais. ’ Encomendavam por migalhas a morte dos seus desafetos; sua cabeça entregue numa bandeja; sindicalistas, políticos de oposição, entre outros. Chegavam a dizimar uma família inteira.

Nossa ‘inocência’ nos fazia acreditar que aquilo era coisa de cidade pequena, que a falta da presença do estado facilitava ações como aquelas.

Nos enganamos. A violência se transformou em um câncer que contaminou todos os órgãos do corpo, sem a opção de ao menos tratamento paliativo.

O estado não falha ao cobrar, mas nega direitos fundamentais ao cidadão. Foto: Imagens Aéreas Controle de Trânsito e Segurança do Rio de Janeiro.
O estado não falha ao cobrar, mas nega direitos fundamentais ao cidadão. Foto: Imagens Aéreas Controle de Trânsito e Segurança do Rio de Janeiro.

 

Não importa. A violência faz parte do nosso cotidiano. Pior, o estado tem sido um dos responsáveis pelo crescimento dos índices que engrossam o número de mortes no Brasil.

O estado não está presente, principalmente onde ele é mais necessário. Nas regiões de grande risco social.

Na periferia das grandes metrópoles, por exemplo, ações milicianas, de narcotraficantes e de grupos armados como de extermínio e os justiceiros contabilizam números que não nos causam orgulho algum.

Em agosto, quase vinte pessoas foram executadas em chacinas em Barueri e Osasco, na grande São Paulo.

Teria sido uma ação em retaliação e vingança pelas mortes de policial militar e de um  guarda civil dias antes.

Uma força tarefa investiga as mortes. E mais recentemente, numa ação policial, policiais foram flagrados por um cinegrafista amador que registrou a execução de um suspeito de roubo e depois alterando as provas e o local do crime, e até a combinação de relatórios para encobrir seus crimes contra a sociedade.

Alexandre de Moraes, secretário de Segurança no Estado de São Paulo atacou as declarações do ouvidor de polícia, Julio Cesar Fernandes Neves que teria afirmado que ‘estamos diante de grupos de extermino.’

 

A incidência de crimes cometidos por militares no Rio e em São Paulo é maior que em Minas. Foto: Redes Sociais.
A incidência de crimes cometidos por militares no Rio e em São Paulo é maior que em Minas. Foto: Redes Sociais.

Moraes rebateu, afirmando que não passam de declarações panfletárias.

São atitudes como a do secretário Alexandre de Moraes que indiretamente contribuem para o crescimento da tese do ouvidor.

Ao invés das autoridades somarem forças no combate à violência, à criminalidade, e oferecer uma segurança de qualidade ao administrado, elas acabam adotando comportamentos que colocam um mesmo governo em polos contrários.

Não há mais tempo para maquiar um ‘frankenstein’ temendo prejuízos políticos.

Nitidamente são discursos diferentes. Quando deveriam  ser uniformes em busca das melhores e mais eficazes ações em favor da vida; em favor da liberdade de ir e vir do cidadão.

Pelo visto, a preocupação não passa de político-partidária, e que em detrimento do povo, objetiva continuar enganando os eleitores e fazendo crescer a carnificina urbana.

Existência de grupos de extermínio e justiceiros é algo concreto. O contrário, seríamos todos cegos, surdos e burros.

O jornalista Roberto Cabrini, em recente programa Conexão Repórter, exibido pelo SBT [Sistema Brasileiro de Televisão] mostrou uma fase dessas organizações criminosas.

Elas sempre começam com um grupo que se julga acima da lei para ‘promover’ a segurança de uma comunidade, exercendo a justiça pelas próprias mãos, se aproveitando da necessidade [oportunidade] e ausência do estado que se mostra omisso quando seu dever é fazer cumprir a Constituição Federal/1988.

Os grupos de extermínio são em sua maioria, compostos por cidadãos comuns, policiais civis e militares, ex-policiais e até políticos, que de uma forma ou de outra, se vale de métodos ilícitos para alcançar seus objetivos.

Para tanto, não medem esforços para alcança-los. Apostando na impunidade e no poder do dinheiro, que corrompe e lhe mantém inatingível, impune entre os cidadãos de bem.

Esses bandidos, que tem seus tentáculos em todos os setores da sociedade caminham livremente entre nós, certos que jamais serão descobertos.

Prefiro pagar pra ver. E combate-los.

Nilton Ramos
Bacharel em Direito; Pós-Graduado em Direito do Trabalho Lato Sensu; humanista e fundador-presidente da ONG CIVAS – BRASIL.

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